Prefeitura Municipal de Mossoró

 

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Noite Mérito da Resistência è destaque no programa dos 80 Anos da Resistência

11 de junho de 2007

 

A Prefeitura Municipal de Mossoró homenageou, na Noite do Mérito da Resistência, sábado, 9, no Requinte Buffet, com a Medalha Heróis da Resistência, a memória dos mossoroenses que resistiram ao bando de Lampião, em 13 de junho de 1927,  presentes a prefeita Fafá Rosado e familiares dos 106 heróis, entre estes a neta do então prefeito Rodolfo Fernandes, Martha Fernandes de Carvalho, que discursou em nome dos agraciados.

Participaram da solenidade o secretário da Cidadania e presidente da Comissão Organizadora dos 80 Anos da Resistência, Francisco Carlos Carvalho de Melo, Taís Maria Paiva da Costa Ferreira, filha de Joffly de Paiva Carvalho, único herói da resistência ainda vivo, representantes da Câmara Municipal de Mossoró, e seiscentos convidados.


Íntegra do discurso de Marta Fernandes:

“Meu tio Raul Fernandes, irmão do meu pai Paulo, ambos filhos de Rodolfo Fernandes, meu avô, costumava dizer p’ra nós, sempre cheio de orgulho e vaidade por ser mossoroense, que a vitória de Mossoró, no dia 13 de junho de 1927, em prol do bem comum, havia fixado o heroísmo de seus filhos que demonstraram uma grandeza plena de civismo consciente, do qual todo o Nordeste exultou agradecido e que fora um feito proclamado nos quatro cantos do Brasil.

Tentarei estar impregnada deste espírito de orgulho e vaidade dos que nascem aqui nesta terra de Santa Luzia, como meu tio Raul e dos que são adotados por ela, como meu avô Rodolfo, para fazer esta oração em nome dos parentes dos homenageados com a Medalha Mérito 80 Anos da Resistência, instituída pela Prefeita de Mossoró – Maria de Fátima Rosado Nogueira, através do Decreto No 2.953, de 09 de março de 2007.

Quando a proposta de escolher um descendente do homenageado – Rodolfo Fernandes, para ser o orador representante de todos os Heróis da Resistência, nos foi apresentada pelo Secretário Executivo da Comissão Coordenadora dos 80 Anos da Resistência, argumentando ele, o propositor, que esta escolha era mais do que justa recair sobre um de nós, seus netos, por ter sido ele, o Cel. Rodolfo Fernandes, o bravo planejador e comandante valente da defesa de Mossoró contra o bando do cangaceiro Lampião, nos reunimos em família, discutimos a proposta e a mim foi delegada a honrosa missão de aqui, hoje, representar a família de Rodolfo Fernandes. Portanto, aqui estou para falar, em nome da minha família e em nome dos parentes dos destemidos resistentes, de agradecimento, de reconhecimento aos que idealizaram e organizaram esta magnânima homenagem aos nossos amados e inesquecíveis heróis.

Queremos antes do ato de agradecer, esclarecer por quem estamos, “in memorian”, agradecendo. Quem são esses que estão sendo, com justiça, chamados de Heróis da Resistência? Fundamentada nas histórias, com h, contadas por meu pai, e, principalmente, por tio Raul, que ouviam seu pai – Rodolfo Fernandes, com quem não tive o prazer e a satisfação de conviver, pois veio a falecer ainda no ano de 1927, no dia 11 de outubro, comentar sempre que “se não fora os planejadores das medidas de precaução em defesa dos bens da coletividade, que fizeram campanhas de cunho financeiro para aquisição de armas e munições, uma vez que Mossoró dispunha apenas de uma meia dúzia de soldados e que o governo estadual, apesar das solicitações do governo municipal, alegava falta de condições para remeter tropas de reforço; se não fora os organizadores do despovoamento da cidade, com suas estratégias, que evitaram o derramamento de sangue de muitos inocentes da nossa população; se não fora os que ficaram nas trincheiras com armas ou fazendo outras atividades, como por exemplo, limpeza de armas, separação das munições, preparo da alimentação dos entrincheirados e tantos outros afazeres; se não fora os divulgadores dos acontecimentos - pré, durante e pós, como jornalistas, fotógrafos e escritores, a nossa vitória nunca teria acontecido, e hoje, com certeza, estaríamos contando esta história de outra maneira”.

Em face destas histórias que eu ouvi contar, heróis da resistência para o nosso avô Rodolfo Fernandes, eram todos os planejadores, organizadores, entrincheirados e divulgadores envolvidos nesse fato heróico de resistência do povo mossoroense ao bando dos facínoras armados que roubavam, depredavam, martirizavam, matavam e desonravam sob o comando do bandido Lampião.

Recentemente, lendo o Jornal, daqui de Mossoró, Gazeta do Oeste, de 20 de maio do ano em curso (um dia de domingo) interessei-me pela entrevista da jornalista Glória Maria que havia estado nesta cidade no dia 17, também do mês de maio. Fiquei empolgada quando ela respondeu “... o Brasil sempre ouviu falar de Lampião como o rei do cangaço, como um herói. Está na hora do país conhecer também uma outra historia. A história de Mossoró e saber sobre a resistência. Já estava na hora de se reconhecer quem resistiu”, quando a ela foi perguntado se já conhecia a história da resistência de Mossoró. Ainda no mesmo Jornal, só que na página 8 (oito), li o artigo “Heróis da Resistência”, escrito por Tomislav R. Femenick, e aí vibrei de felicidade, quando em algum momento do artigo ele dizia: “... Os heróis da resistência não foram somente aqueles que pegaram em armas, que atiraram contra os cangaceiros de Lampião. Aqueles que fizeram a logística da resistência também o são. Não me consta que o prefeito Rodolfo Fernandes, embora com rifle na mão, tenha atirado, mas foi ele o grande defensor da cidade”.

Estas constatações devidamente registradas em um veículo de comunicação de circulação local, estadual e inter-estadual, agigantou a minha vaidade em representar todos os familiares de todos aqueles que meu avô considerava herói da resistência, mas que muitos ainda insistem em considerar apenas os que ficaram nas trincheiras e estavam com armas na mão.

Portanto, estou aqui em nome dos familiares desses nobres valentes, destemidos e corajosos heróis da resistência, agradecendo a Sra. Prefeita Maria de Fátima Rosado Nogueira, que teve a vontade e a decisão política de prestar esta homenagem aos heróis do dia 13 de junho de 1927; agradecendo aos membros da Comissão Coordenadora representada pelo seu presidente Francisco Carlos Carvalho de Melo; agradecendo a Secretaria Executiva das comemorações dos 80 anos da resistência, encabeçada pelo professor Felipe Caetano de Oliveira; agradecendo aos incansáveis coletores de informações junto aos familiares dos homenageados – Aldenora Rocha de Souza, Felipe Caetano de Oliveira, Maria Francisca Vieira Gouveia e o Pastor João Leandro da Silva; agradecendo, também, aos senhores: dr. José Mário Gurgel de Oliveira, Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, dr. Paulo Fernandes, Pe. Sátiro Cavalcante Dantas, José de Anchieta Alves Lopes, Antônio Kydelmir Dantas, Geraldo Maia do Nascimento, Tomislav R. Femenick, Raimundo Soares de Brito, Antonio Filemon Rodrigues Pimenta, Wilson Bezerra de Moura, Paulo de Medeiros Gastão, Elder Heronildes da Silva, Diógenes Sales de Oliveira, Francisco das Chagas Barbosa (Chico Carão), José Firmino Rocha e Silva, João Rodrigues Filho e Cláudio Rodrigues da Silva e as senhoras: Eve Mota Gurgel de Oliveira, Enetildes da Silva Mota (Dona Dita), Isaura Marly Rosado Cantídio, Concita da Escóssia Melo, Eliane Rosado Cascudo Rodrigues, Maria Zélia Fernandes, Meyre Ester Cantídio Fernandes, Rose Marie da Silva Cantídio, Vicência Pinheiro Rocha (Dona Cencinha), Maria Auxiliadora Freire de Andrade (Dona Cicia), Maria Lúcia Escóssia de Castro e Lúcia Cabral Rocha, conforme o secretário professor Felipe Caetano, estes passaram a ser chamados de consultores da resistência, pois cada vez que iam a procura de descobrir os parentes dos homenageados, eram estes senhores e estas senhoras consultados. Dentre as senhoras, faço com destaque, agradecimentos “in memorian” à Dona Francisquinha Dias, que faleceu muito recentemente, em 08 de maio, também uma das consultoras da resistência; e por fim, agradecendo a equipe do cerimonial da Prefeitura Municipal de Mossoró, aos arquitetos, iluminadores e decoradores deste ambiente agradável, aos fotógrafos e colunistas que registram para história esta noite memorável, aos músicos da Banda de Música Artur Paraguai e da Big Band da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte que encheram de sonoridade harmoniosa e de qualidade os nossos ouvidos e aos garçons prestimosos deste requintado buffet.

Para finalizar esta nossa oração, ilustro com vários pensamentos de sábios. De Nilo Pereira, que referindo-se ao grande comandante Rodolfo Fernandes, disse: “a figura do Cel. Rodolfo Fernandes, prefeito de Mossoró, quando se deu a invasão, volta a nossa lembrança opulentando-se cada vez mais no gesto heróico, desprendido e legendário com que sem medir sacrifícios nem perigos mostrou ao facínora que não havia no Rio Grande do Norte, lugar para suas façanhas e os seus crimes”; ilustro com o pensamento de Raimundo Nonato, quando assim faz referência aos resistentes: “... ao entardecer do dia 13 de junho, quando Lampião despejou todo o peso de suas baterias contra as trincheiras de Mossoró, foi recebido com inopinado rebate dos defensores da cidade. A reação de Mossoró ao ataque dos bandidos deu mais uma prova da resistência cívica de sua gente”. E diz mais: “o pânico devia existir, como foi um fato; mas a coragem brotava no peito de cada cidadão, que, sereno, ia para a morte ou para vitória”. E de forma poética exalta os heróis da resistência: “Triunfou o direito sobre o crime, o dever sobre a violência, a ordem sobre a desordem e o heroísmo sobre a covardia”; e ilustro também, com o pensamento de Luis da Câmara Cascudo, quando refere-se ao Cel. Rodolfo Fernandes como homem de fé e confiança nos seus comandados e ousado em suas decisões: “Surgira o homem, provincial necessário de Carlyle, polarizador incomparável da energia, o prefeito Rodolfo Fernandes, organizando a defesa, arregimentando dedicações, improvisando e reunindo armamentos e munições, enfrentando a incredulidade que negava o perigo aproximado, sacudindo os tíbios, encorajando os fracos, comunicando, contagiando, irradiando a confiança, a fé, a convicção na invencibilidade da cidade aberta, transformada em fortaleza inexpugnável. Negou-se a pagar o resgate para evitar o tripúdio. Desafiou a investida devastadora”; e finalizando este elenco de pensadores sábios, cito meu tio Raul Fernandes e faço minhas e as nossas, as suas reverências e ponderações: “ Reverencio a memória de meu pai Rodolfo Fernandes. Louvo a coragem daqueles que o ajudaram – a polícia e a população em geral; nesse trabalho (no livro a Marcha de Lampião) não desejei desmerecer pessoas. Cabe a história o julgamento”.


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